As àguas revoltas da vida me envolveram em seu torvelinho denso de troncos e raízes arrastados pelas mãos descarnadas do tempo. -- esse sádico maestro de sonhos que teima em descosturar as malhas da ilusão entretecidas, sempre, ao cair da tarde na longa espera, à porta da casa. Ajoelhada em volta do fogo fico à espreita das labaredas, que vêm lamber as brasas. Os cabelos emaranhados da noite. Os lençóis desmanchados em suor e sangue. A desdita do trabalho em vão. As pérolas e seus colares atados de nós. O nascente e o poente que não mais querem brincar de esconde-esconde no desorizonte. As rugas dependuradas na face. O olhar de peixe morto. Um bater de asas. Portas e janelas da casa. Fechadas.
Ajoelho-me as tuas margens. Arrasto-me. Arrasada, ergo os olhos para tuas encostas. Tuas intangíveis escarpas. Como alcançar-te no ponto exato, onde te perdi? Muralhas.Mulheres. Outras mãos deslizando sobre tua pele. Escalpo. Florete. Mandarim. Um olho cego desnorteia-me nessa procura obscura. Perdi o mapa do teu peito. Florestas. Tramas. Ramas. Tento decodificar os arabescos indecifráveis. Teus rastros deixados em minhas paredes uterinas. Hieróglifos. Caracteres de uma escritura sagrada. Eu tinha a bíblia do teu amor, aberta, sobre a minha penteadeira, Mas não a li. Escovas. Cabelos. Arlequins. Experimento novas e antigas máscaras. Vejo-me no espelho e não reencontro mais o meu rosto. Mestre. Mastro. Maestro. Tua deixaste de reger a orquestra de sinos de ventos, que cantarolavam em mim. Nas insones noites, feitas de longas despedidas e ausências. Abandonaste a casa que te serviu de abrigo, na escuridão dos meus dias...
Imagem: Love Toshev Artist Submersa no oceano que me habita minha casa emerge a sua chegada. As janelas são cisnes que abrem suas asas em eterna posição de vôo. Pela tromba do elefante espio o pouso da sua nave interestelar penteando as àguas descabeladas de Netuno. Os tenazes guerreiros postados às portas persistem em eterna posição de lótus. E as sereias que me fazem companhia, tramando comigo a infinita rede de dias e noites, (onde, como o poeta, descansa o tempo) se alvoroçam com sua presença, fria e mortal deus titânico das marés, skywalker das galáxias. Seus dedos riscam anéis de luzes em meu corpo bordejam borboletas so blues, brincam de tatuar serpentes azuis que deslizam sobre a minha pele e desaparecem na praia de areia fina e escaldante do meio dia. Despertas a fúria...
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