sábado, fevereiro 17, 2018

Nésperas do esquecimento


                                                                                   Para Patricia Claudine Hoffmann e Cy Claudel 

À espera de algum milagre,
descasco as nêsperas no prato, descanso a faca
e me delicio com a polpa que ainda trás um aroma
de quando foi flor. 

No limiar da escada, tropeço em ossos alquebrados
dos que pararam no caminho.
Destravo portas e janelas, para respirar a noite.
Tenho relíquias intangíveis no peito.

Um terço centenário que foi do meu pai,
ficou anos pendurado sobre a imagem do Sagrado Coração,
pendurado na parede do quarto,
até que alguém o surrupiou.

Levou a peça, mas não a lembrança.

Tem gente que acha que pode assaltar corações,
caixas de memórias, cofres de emoções.
Não pode. 

À sombra da árvore do esquecimento,
fiz um jardim de lembranças de todas as cores
para capinar todas as manhãs.

Me alimento com o perfume dos que me habitam,
em tempos de cólera, ou não. 

As janelas abertas para o pomar, agora que estou morta,
já não me surpreendem.



Imagem: fotografia de ambiente francês 

terça-feira, agosto 08, 2017

A sofreguidão das horas


“Porque é de manhã e
tudo em ti se acalma do que termina.
A neblina se inclina ao sol.
Dobra-se no feixe dos teus olhos
durante todo o até.”
Patricia Claudine Hoffmann

                                                Ilustração: Elena Schlegel



É de manhã que a sua fome de amor se acalma.
Se enrola no lençol branco e dorme, nascidocomo se tivesse acabado de nascer;
os raios de sol encortinam-se nos seus cílios e pincelam de dourado o quarto;
e tudo em volta é silêncio e imóvel permanência, 
até o final dos dias.

Como se o tempo não fosse o portador de ruínas,
ainda que também de discernimento.
O tempo que se veste de sol, durante o dia, e de lua, à noite,
para se camuflar com sua idade primeva e inaugural das trevas.

Entre o azul e o lilás do seu manto,
eis um senhor desdentado e vestido de outono,
sem nenhum pudor de suas folhas secas.

Nos milharais da infância, tua têz era sanguínea.
Com o arado em riste, fazia brotar tuas sementes.
Teu sêmen povoava a terra herdada dos seus antepassados,
e tudo era vôo de pássaro e água fresca da fonte.

Agora, está só no mundo.
Tudo em volta é desesperança
e sol quente do meio-dia.
Riso amarelado de demônio, 
meio demente.

Nenhum chapéu para proteger tua fronte.

O suor salgado, machuca-lhe a pele cortada pelas folhas finas do capinzal.
Teus lábios ressequidos buscam o cálice esquecido entre as baldranas,
penduradas no paiol.

Fecha os olhos e finge dormir...

Penteia os cabelos da madrugada em seu colo, 
entre vígilias e despertares abruptos;
os gritos roucos no meio da noite despertam a ira dos ratos,
mas nem sua mãe vem aplacar-lhe os soluços.

O vento barbudo lá fora não ousa um balbucio.

Teus dias já estão arrancados do calendário, bem o sabes,
mas carregas a tua cruz
com a convicção dos homens crentes na sofreguidão das horas,
no amanhecer dos dias que virão depois,
para os teus descendentes.

É de manhã que a sua fome de amor se acalma.
Então, adormece, renascido. 

São Paulo, 08 de Agosto de 2017.








quinta-feira, novembro 05, 2015

Cavalgada dos Ratos



Usavas um vestido de neblina na noite das bruxas,
fantasiada de noiva-cadáver.
O tempo e o espaço por testemunhas
do enlace desgraçado:
que filhos irias parir na noite densa e cheia de culpa?
Bebês com patas de cavalos?
Deuses vikings desossados?
Cavalgadas de ratos corriam sobre o teto,
deliciavam-se com o veneno escondido
nas roldanas das janelas.
Mas não morreriam.  
Eram feitos de chumbo e sonhos de valsa.
Falsos. Fakes. Ignaros.
Os parentes mortos, no lugar dos vivos, empalados
nos porta retratos.
Os vizinhos sentavam-se à janela
para apreciar a noite de luar prata
e um parrícidio em câmera lenta.
Teias de aranha esticadas entre as quilhas da cozinha
para o malabarismo dos insetos.
Chamavas os filhos pelo nome de flores:
girassol, margaridinha-branca, coroa-de-cristo, cravo, crisandália
e orquídea-azul.
Não lhe cortavam nem as unhas dos pés,
prá obrigá-la a andar de quatro.


Imagem: Irena Schrul

sexta-feira, setembro 11, 2015

baralho de cartas & unicórnios azuis








 baralho de cartas & unicórnios azuis

a lua vestiu-se de veludo azul  e desceu aqui na terra
montada num rinoceronte branco:
veio inspecionar o seio das sementes
que não germinaram na última primavera.
entre abricós-de-macaco e limas da pérsia,
flores de maracujá e orquídeas lilases;
 alguns milênios passaram-se aos trambolhos;
asteróides do desespero emaranhados
 em anéis estelares, dramas interplanetários,
homens engolidores de fogo,
e mulheres cortadas ao meio.
o mágico chinês fechou seu baralho de cartas
atirou-o no espaço e saiu desabalado em sua carruagem
puxada por unicórnios verdes-água. 
dobrou e guardou no bolso do fraque,
a última pomba da paz, o último lenço de adeus
acenado aos puros de coração

que morrem sozinhos, nas praias do abandono.

terça-feira, agosto 25, 2015

BALADA LITERÁRIA:LANÇAMENTO VIRTUAL DO PRATO DE CEREJAS

Amigos e amigas, queridos:
eu me comprometi que faria um "esquenta", antes da 20 horas, que é prá dar tempo de esperar os nossos colegas autores, que não têm acesso ao facebook, durante o dia, chegarem do trabalho e se juntarem a nós.
O dia, claro é de muita festa, e começou muito agitado. Como a maioria de nós autores, aqui, na média, passa dos quarentinha, portanto é tudo imigrante digital, levamos alguns sustos, ontem, quando fomos informados que os livros (e-books -- ainda não me acostumei com essa palavrinha) estavam prontos e disponíveis nas megastores. Claro, que corremos prá elas, prá tentarmos ser os primeiros compradores e leitores dos nossos próprios livros, e, assim, conferir se estava mesmo tudo certinho, como haviamos entregues aos editores da e-galaxia, responsáveis pela plataforma digital e a distribuição no mercado.
No começo, foi um susto. alguns que procurávamos, não apareciam. Outros, apareciam sem capa. Outros, ainda, completamente desformatados, etc...etc...etc...afff....sofremos o surto dos dinossauros que ainda retiravam seus livros em pacotes, pesadissimos, em gráficas, e muitas vezes precisavam de um caminhão prá transportá-los até o local do lançamento. O advento das novas tecnologias para livros digitais é absolutamente tão fantástico que imigrantes digitais como nós, embora estejamos aqui, lançando uma coleção com sete livros, por meio do selo PRATO DE CEREJAS, ainda nos confessamos embasbacados com o fato de, em apenas um ano, estarmos presentes seis megastores diferentes, e que são simplesmente as maiores do mundo: Amazon, Apple, Google Play, Saraiva, Cultura e Kobe.
É uma mudança da água pro vinho, e estamos exatamente no meio da transição. Hoje, por exemplo, seria um dia de festa bem diferente do que esta que estamos programando aqui. No mínimo, estaráamos nos preocupando com a comida, a bebida e a música, além das flores, talvez velas, prá criar um clima, no caso de rolar um sarau, mas não foi, nada disso se fêz necessário. Confesso que dá um pouco de frustraçao, sim, prá quem ama uma festa, e não precisa ter motivos prá fazê-la, como eu, mas, por outro lado, é um conforto imenso, só pensarmos em receber os nossos amigos, e na qualidade do que vai estar disponível prá eles, nas prateleiras das megastores do mundo. Só isso nos importa, hoje.
No mais, prevemos que será um encontro virtual, sim, mas muito emocionado, de gente que não se encontra há muito tempo; de gente que vimos, no meu caso, há duas décadas, quando publiquei o meu segundo livro; de gente que não vimos desde que nos formamos e cada um foi para um lado da vida; de nossos familiares, amigos mais próximos, colegas, enfim, a festa vai ser completa, sim, disso não tenho dúvidas.
E agora, é deixar rolar, deixar acontecer, que os nossos livros selados com o Prato de Cerejas nasçam para o mundo, neste lançamento virtual, e que também sigam o seu próprio fluxo. Desejamos-lhes muito sucesso. Como autores e leitores, fica aqui a nossa promessa de sempre nos mantermos por perto, e de acompanhá-los, sempre, com todo o nosso carinho, em sua trajetória real que começa hoje, neste 25 de agosto de 2015.
desde já, todos o meu carinho e agradecimento a todos que acreditaram, desde o início, nessa brincadeira com cerejas & poesia que acabou virando coisa séria.
MARISA RODRIGUES
poeta, jornalista, curadora do Prato de Cerejas
e autora do e-book CEREJAS AZUIS DA MEIA NOITE.

domingo, agosto 16, 2015

Viagem nas costas de um cavalo-peixe



arreio o meu cavalo-peixe
calço botas e esporas, e arranco pelas planícies
campinas e pastagens do Brasil central;
os goianos têm fala mansa e fama de bons amantes
mas deixo minha cama ainda quente,
em busca de outras terras
onde possa deitar minhas sementes.
os pastos estão secos, esturricados
o gado já não dá carne nem leite.

é tanta poeira que os meus olhos se tingem de sangue
neste agosto bruto, vestido de vermelho, no sol poente.

Ventre de Vênus








mergulho em ti na noite rosa
e  retorno à tona com minha boca cheia de escamas
dos peixes líquidos, engolidos a cada amanhecer:
lençóis de algodão, umbigo oleoso & piercing inflamado
teu corpo se desenrola prá mim em pergaminhos de tatuagens
florzinha passarinho dragão
 São Jorge anjo  foice martelo
os desenhos flanam na superfície da sua pele
e desembarcam nas planícies ao sul de Creta;
como um Ulysses cansado da guerra, você dorme
enrodilhado em concha,
sonhando com o ventre de Vênus.
no outro dia, o bárbaro se levanta
disposto a navegar os mares bravios, outra vez.
beija-me os mamilos,
e deixa-me outra vez à espera dos peixes líquidos,
de escamas coloridas
que virão do fundo do oceano,
enroscar-se nos meus lábios-anzóis,

onde tatuei a palavra boca

Imagem: Alessia Ianetti 

sábado, agosto 01, 2015

Casa de abelhas




Florzinha de macela se enrosca na palavra frágil
de arame.
Ao fundo, as montanhas soberbas
em sua perenidade.
Flores e pedras se compõem
nos mistérios do outono. Tecem os cabelos da memória.
Evocam lembranças dos homens que tocavam rabeca
embaixo das janelas mineiras.
"Minas não há mais", diria Drummond.
Tem razão o poeta. Só restaram pedras e homens.
Escravos.
Escravas.
Libertas quae sera tamem, agora é só uma frase,
bordada em panos que já tremularam
no alto dos mastros e dos corações valentes.
Do chalé recortado no topo do morro,
restou a brancura solitária na paisagem fria.
Agora, silencioso e tácito, é abrigo de abelhas africanas.
O cachorro aspira o cheiro adocicado no ar.
Enfia o fucinho debaixo da porta.
Sente o zum-zum-zum dos ferrões libidinosos.
Fora, os galhos ensandecidos da primavera
constroem um aramado de flores sobre o telhado.
Eu crio coragem e entro na casa.
Abro suas cortinas de teias de aranha.
Piso num tapete de favos.
Afundo meus pés numa pasta de cera.
Um enxame de abelhas me envolve.
Nuvem negra de mel,
derreto-me.

terça-feira, julho 14, 2015

Poema para Plutão e Mac Arthur Park










plutão em trânsito com Saturno,
ostenta, exibido, suas quatro luas nos céus,  
e eu aqui pendurada no lustre, 
treinada por  malabares exóticos, 
enquanto o rinoceronte azul
dorme e ronca no sofá da sala.

Richard Harris sussurra uma canção
no meu ouvido
e eu volto num tempo
em que nunca vivi
_ passado e presente se confundem
nas telas oníricas dos meus sonhos.
Não sei quem eu sou, ou onde estou
se tudo já passou, ou não.

Grão de areia entalado na ampulheta,
esquecida sobre a mesa.

[poeira cósmica
crisálida
aranha enroscada na teia]

estou acuada
na garganta da vida
alguém retirou as baterias do meu relógio biológico
pregando-me uma peça de muito mal-gosto
e eu não sei mais o que fazer

: titereiro
do meu próprio destino,
minhas mãos  -- hoje -- acordaram
com artrose


Imagem: I give you my heart
Adrian Borda



sexta-feira, julho 10, 2015

MEMÓRIAS AZUIS

MEMÓRIAS AZUIS


(há dias em que é preciso ter um cemitério de peixes lá no nosso fundo. abismo.

não deveria ser assim, esse tumulto. fomos lançados contra o tempo futuro, nos 

entregamos sem saber, sem sentido. talvez nossos encontros sejam feitos de memórias 

vencidas.)

Renato Silva




No abrupto mar azul de nossas memórias,
alguma coisa explode em chamas.
Uma mulher pegando fogo no meio da rua.
Um labirinto de borboletas esvoaçando em torno do nada.
Tudo evanescente.
Etéreo.
Incorpóreo.
Pele subrreptícia, que não adere.
Ferida que não cicatriza.
Andamos em paralelas que nunca se cruzam, nem se tocam.
Andamos em círculos, até chegar à beira da catástrofe.
Até ultrapassarmos todas as fronteiras da tragédia.
Até nos lançarmos sem paraquedas, em direção ao buraco negro que nos habita.  Só o nosso umbigo, no mapa de nossa vã existência. E depois um vazio. Um deserto de esqueletos atrás das portas. Um ex-grão de areia no universo, visível apenas pelos seus vestígios de sangue.