quinta-feira, novembro 08, 2012

O cão em eterna vigília





O cão em eterna vigília


I
E o cão fez vigília à minha porta,
na noite escura.
Tentei acender uma fogueira de gravetos,
recolhidos durante a jornada,
mas eles estavam molhados.
O vestido branco
bordado com poemas,
não me serve mais.
Caminho nua.
em meio à tempestade.
O barqueiro passa ao longe
com seus lampiões acesos no convés,
mas não me enxerga na noite densa.
O anel de pedras coloridas
ainda brilha no meu dedo indicador.
Ele poderia ser a minha bússola, mas não é.

II
Eu me desoriento na penumbra,
em meio aos cadáveres
que teimam em se levantar de suas tumbas.
Mas sigo em frente.
Não temo o açoite de raios e trovões
que ribombeiam sobre a minha cabeça.
Insisto. A estrada é escura a minha frente.
Mas uma lua de prata, ilumina-a, vez ou outra.
Os javalis uivam a minha passagem.
Os cães ladram.
As crianças choram e pedem pão.
Mas dentro de mim, só trago ausências.
Desilusões. Perdas.
Um punhado de dentes cuspidos nas mãos.
A boca torta. A língua presa. Um olho vesgo
.
III
O cavalo branco relinchou e fugiu,
levando consigo as estórias de fadas.
Não existe mais príncipes nem princesas,
só madrastas e bruxas e malvadas
bancando moças modernas.
Estou sozinha e caminho na escuridão.
Aferroada por grilhões pulsantes presos aos meus punhos.
Eles me libertaram da masmorra
mas ainda me mantém  algemada.
Meus livros foram queimados pelo incendio, 
que adentrou  minha morada.


IV
O seu amor – agora -- é um buquê
de espinhos
-- e lírios mortos -- 
em minhas mãos:
_  e sangra !

Paraty (RJ)  – Flip 2012

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