segunda-feira, maio 25, 2015

Água para borboletas




"Eu sou quando e depois...
                                                                               ...   falo em águas”.     (Manoel de Barros)


Eu ainda acabo tendo um destino de árvore:
de tanto ficar sentada feito Buda,
não vou morrer, vou criar raízes.
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Eu olho pela janela e vejo o dia dezaluzando lá fora. Tenho que entrar no site do banco e pagar um par de contas: do telefone, da energia elétrica, do gás. A prestação das meias que comprei pro inverno do ano passado e que nunca usei. Os moletons que importei da China pelo site muambeiro e que também ficaram guardados, pois quando aqui chegaram, já fazia um verão de 42 graus.  Os grilos já pedem carona lá fora, prá irem prá casa, no lombo das borboletas e eu aqui, sentada sobre a minha dor de pagar contas de coisas que não prestam nem prá fazer poesia. Não se pode usar moletons como sementes de estrelas. Bois não vestem meias. O inverno do ano passado já virou água no calendário da minha mesa e escorreu pela fonte dos meus desejos.  Só não foi esquecido na contabilidade dos meus credores, que lhe acrescentaram juros e multas e juros sobre juros. Juras de amor ninguém mais faz prá ninguém, a menos que seja no Dia dos Namorados, do Abraço ou do Beijo.  Afetos que ainda existem só nos crediários, prá gerar boletos, carnês e prestações vencidas. A cachorra emburrada embaixo da minha mesa, fez um cachecol com o próprio rabo,  enquanto me espera prá sair e despejar seus dejetos na rua: cocô sobre a graminha verde daquele vizinho que usa um tapa olho com suspensórios; xixi nos canteiros de margaridas que a síndica mandou fazer só prá dar mais empregos pras empreiteiras da sua igreja; sem nenhuma  discriminação, porquê cachorro não sabe o que é isso, gente é que sabe. Cachorro tem parte com as asperezas dos perfumes. Só distingue o cheiro ruim de quem não entende a linguagem canina dos rabos. E os presenteia com o que lhes vai dentro do corpo. Sem nenhuma vingança. Vingança é coisa de seres sem rabo.  Ou que os têm. Presos.

Imagem: Kukula



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