sexta-feira, julho 10, 2015

Não-diálogo






você me chama prá te ajudar a colher pinhões
eu levo a câmera fotográfica
e um cachorro por testemunha.
Nada mais há entre nós, senão o som
das castanhas caindo das araucárias;
o silêncio chiado das folhas,
amassadas pelo salto das minhas botas
em passos nervosos,
num andar desajeitado
de quem faz pose de que não está nem aí;
você brinca com o cachorro;
instiga-o a procurar lobos
em pele de carneiros;
ensina-o a comer pinhões crus
e eu ali, sem saber o que fazer com
minha câmera profissa,
se tiro um retrato 3 x 4 de nós dois
e mando providenciar os papéis do divórcio;
se balbucio um desejo de abraço,
uma vontade de me atirar ao seu pescoço,
mas tudo o que consigo é gritar-lhe  a minha raiva
pois você não entende mais os sinais do meu corpo
parece que agora estou escrita em braille
e você não quer  mais aprender novas lições
de amor;
o facão faz zipzap no matagal;
seu braço forte vai derrubando samambaias,
pequenos arbustos, trepadeiras, um pé de fruta-pão:
o homem que não cultiva uma floresta
no seu coração
não saberá nunca fazer uma casa na árvore.

Ilustra: Mark Riden 


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