quarta-feira, janeiro 07, 2009

Eu sempre esqueço o chapéu


(Eu e Regina, a pianista, num sarau de poesias no Reveillon, na Pousada De Camburi. Presente antecipado de aniversário!!!!!!!!!!!!)

Vou à praia, mas sempre esqueço o chapéu.

Enquanto caminho, fotografo folhas secas, meus passos na areia,
troncos apodrecidos, trazidos pelas ondas.
Mar. Montanhas. Pedras. Céu.
O homem do violoncelo não veio ontem à noite.
Parece que se perdeu em devaneios,
com a bailarina dos sete véus.
Reunidos em volta da fogueira, cantamos e dançamos.
Chamamos chuva.
Olho-me no espelho e arrumo a flor
que brota entre os meus cabelos.
De manhã, ela já é uma trepadeira
e cresce pelos meus muros interiores.

Eu sempre esqueço o chapéu.


Espio pelo buraco da fechadura e descubro
a enxadrista trancafiada lá dentro, no alto da torre,
Enquanto o bispo foge com a rainha
montado no cavalo branco.
O rei está nu e se ajoelha diante do peão.
Emudecidos. Um diante do outro.
O guerreiro entrega-se ao destino do arco.
Cabeças rolam pelo tabuleiro.
Sob uma fraca luz amarela
a pianista dedilha acordes de La Violetera.
A poeta declama versos. Joga pérolas aos poucos,
à platéia pétrea.
A moça das sandálias romanas ensaia um dueto com a DJ. Ela, a atriz, pousa o taco sobre a mesa,
despe-se, sensualmente, de sua máscara
e vem espiar a festa.
Dois prá cá, dois prá lá. Um passo em falso e a valsa é falsa.
Pocahontas aparece vestida para matar. Caras Pálidas.
Um grito ecoa no meio da mata. Os sapos martelam seu desejo de acasalar nessa noite densa. Os vagalumes distribuem luzes, às tontas. Botam lenha na fogueira. Corujas e pirilampos batem asas em coro. Música, mais música, cantam os louvadeuses.
.
Taças tilintam um brinde para um ano novinho em folha.
Mas, para mim, este ano, tem mesmo é cheiro de toalhas guardadas
nas gavetas do tempo.



OBS. Este poema foi inspirado neste final de ano, entre um Cruzeiro de Natal e o Réveillon em Camburi. Agradeço a todas as pessoas que, sem o saber, participaram dessa collage de imagens poéticas: Eliane ( enxadrista I), Edna, minha amiga querida, Wagner (o “dono da festa”), Sofia (vestida de Pocahontas), Regina (a pianista), Karina (a DJ), Marina ( enxadrista 2), Frederico (o pai), (Paulinha, a bailarina dos sete véus), a moça das sandálias romanas, que se esqueceu de me dar seu cartão, o Kito, com sua presença quase ausência, de tão diáfana. E ainda, ao Philippe, que, mesmo sempre tão longe, é o maestro dos meus insolentes solilóquios.)
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