...porquê é tão difícil termos uma atitude amorosa, de olhar o outro nos olhos, sem medo, sem desconfianças, e não temos a coragem de nos dizer: errei, erramos...vamos nos dar uma segunda, terceira, quarta, centenas, milhares de chances se forem possíveis, porquê o amor vale a pena, o amor é a única coisa que vale a pena na nossa vida tão pequena e mesquinha...que nos adianta levantar cedo, trabalhar até cairmos mortos, e não ter com quem dividir o lado da cama, aquele lado que sempre fica vazio, que é guardado com todo o respeito, como se esperássemos a volta do morto, daquele se foi, que se pariu na escuridão dos dias e das noites, que se perdeu de nós e de si mesmo; é tão triste olhar para o lado e descobrir que estamos tão sós, nesta cidade virulenta, violenta, petrificada, sem ter alguém para beijar nos lábios, bem de leve, e dizermos:"boa noite, amor, boa noite"
Nésperas do esquecimento
Para Patricia Claudine Hoffmann e Cy Claudel À espera de algum milagre, descasco as nêsperas no prato, descanso a faca e me delicio com a polpa que ainda trás um aroma de quando foi flor. No limiar da escada, tropeço em ossos alquebrados dos que pararam no caminho. Destravo portas e janelas, para respirar a noite. Tenho relíquias intangíveis no peito. Um terço centenário que foi do meu pai, ficou anos pendurado sobre a imagem do Sagrado Coração, pendurado na parede do quarto, até que alguém o surrupiou. Levou a peça, mas não a lembrança. Tem gente que acha que pode assaltar corações, caixas de memórias, cofres de emoções. Não pode. À sombra da árvore do esquecim...
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