terça-feira, novembro 15, 2011

Religião dos Jardins




Lençóis branquinhos dançavam a cerimônia do adeus,

nos varais infinitos, da minha infância.

Anil era a cor do céu,

so blue.

Adeus pai. Adeus mãe.

 Irmãos.Vizinhos.

Adeus que eu vou embora, teria lhes dito,

              [ corajosa ]

não fossem as  lágrimas ocultas.


No canto do olho, a trave.


E a dúvida, entre partir ou ficar

             [para sempre]

instalada nas tramelas das janelas.



O chão batido da cozinha.

As açucenas brancas acenando nas manhãs insones.

As coroas de cristo reverenciando  o sol do meio dia.

E a santa Ave Maria abençoando, as seis horas, o copo dágua ,

ao lado do rádio:

 “bebe, filha, bebe. A água do Senhor vai te fazer bem”.

profetizava minha mãe.



Mas o lago azul da minha infância,

Já ficara opaco no retrovisor do meu carro.

O futuro era um álibi prá fugir do presente.

Um presente onde as tardes eram sempre azuis

E eu podia contemplá-las de minhas janelas,

Abrindo-as de par em par, para a imensidão dos dias.


E, agora, peregrino sozinha pelos desertos da vida,

sem descanso,

sem parada sincera que me abrace do cansaço,

sem destino certo.

Ah, minha mãe, eu recebi o sofrimento por herança,

quando reneguei a religião

dos teus jardins.



20 de agosto de 2011, Dracena (SP)
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