terça-feira, julho 31, 2007

O uivo de La Loba


Abri a cortina de teias de aranha
e adentrei a caverna úmida.
Os olhos do lobo acuado
brilhavam no fundo negro da gruta.

A velha, de cócoras,
entoava uma canção profética,
enquanto remontava o esqueleto de ossos,
como se fosse acender uma fogueira
de gravetos secos.

Ao estalar do fogo,
suas labaredas subiam,
línguas vermelhas de sangue
para a Sétima Abóboda do Céu.

Puxei meu colar
e as pérolas espirraram longe
demarcando o caminho a prosseguir.

Saí, sem olhar para trás,
mas sentindo o brilho intenso
[do olhar]
da Mulher Selvagem.

Das rugas de meus pés descalços
nasceram rios em sentidos vários
o sangue gotejava
de minha fronte
e quando puxei o lenço branco
para enxugá-la,
a pomba da paz voou para longe.



O oásis já estava bem perto,
pensei, e me sentei no chão,
para arrancar os carrapichos
das minhas roupas em andrajos.

Por sete séculos e sete vidas
fiquei assim, sentada,
com uma pulseira de salamandras
amarrando-me os pulsos, dormentes.

Não podia tirar água do poço,
pois o balde enferrujara
e a corda, que o sustentava,
já se rompera, de tão podre.

Cuspia meus dentes calcinados
nas mãos, e os enfiava,
num colar interminável,
enquanto esperava
pela vinda de La Loba.

Já podia ouvir seus uivos
vindos do Leste,
do alto da Montanha Sagrada,
das florestas encantadas
e dos bosques azuis.

La Loba uivava
[ dentro]
e fora de mim.

As lagartixas morriam de sede
no deserto
e eu não podia fazer nada.
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