Ritual de Despedida
Dispo-me da camisola com um rabo de peixe e atiro-me ao vendaval dos cães noturnos das calçadas e vielas podres. O óleo velho do candeeiro exala um odor de múmias pétreas e nega-se a qualquer sinal de luz. O faroleiro preso no alto da torre tenta encontrar o rastro do navio negreiro desaparecido na noite densa dos temporais. Gigantescas ondas engolem restos de homens, peixes e luas. Na Terra Prometida, os filhos de Adão e Eva não suportarão os horrores do pecado original. Hordas de viajantes tracejam um caminho de ponto-em-cruz nos desertos mais longínquos do Grande Oriente. Com as mãos em conchas Recolho seixos, estrelas e cavalos marinhos dessas areias movediças, e prego-os, um a um, na barra da saia acetinada que usarei na noite cigana. Da árvore da vida, colho os pássaros verdejantes, E com eles, monto um colar de contas, cantos e contos. Com ramos de angélica, sutil perfume, entreteço uma coroa de flores brancas a enfeitar-me os longos cabelos emaranhados ...